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quarta-feira, 9 de maio de 2012

História Sombria de Hoje: O Acidente(4)


Na História Sombria de hoje conclui-se a história de Vivi. Em um final surpreendente a pobre mulher lutará pela própria vida em um desenlace tragico e deveras arrepiante. Veja agora o final desta história de de perigos nefastos e descubra a revelação perturbadora que trará a tona tudo o que nossa heroina mais temia...
 
Fogo.
Era tudo o que ela podia ver. Muito fogo. O incêndio alastrava-se por todos lugares imaginaveis. Pessoas gritavam desesperadas. As chamas invadiam o salão impiedosas e bruxoleantes. Pessoas gritavam e saltavam das janelas. A fumaça suvocava-a. É você. Deve morrer vadia. Dizia a coisa em sua mente. Vai morrer. Pagar por sua ousadia! Viviane estava caída e ofegante em meio a fumaça  ardente. Demétrio segurava-lhe a mão. Ela precisava sair dalí. Urgentemente. Neste instante uma enorme coluna de mármore caiu sobre eles. Demetrio ficou preso entre as ferragens. Foi então que a explosão matou a ambos.
- Mãe? A senhora esta bem?-perguntou Demetrio sorrindo. Vivi olhou em torno de si aflita, passou as débeis e longas mãos sobre a cabeleira ruiva. Demetrio encarava –a atento.- Escutou o que acabei de dizer sobre as partidas de tênis do clube?
- Eu tive outra visão.- disse ela com medo.
- Outra visão? Ora mamãe. Não vá meter-se em uma nova encrenca como a  alguns meses atrás quando aquele louco tentou mata-la. Acredito que é hora de a senhora começar a guardar estas premonições somente para si mesma. Depois daquele episódio terrível com aquele psicopata, tenho certeza de que a senhora não deve mais tentar impedir estas tragédias horrendas. Espero que os últimos acontecimentos tenham de alguma forma servido-lhe de lição. Não devemos insistir sobre mudar o destino. É uma vontade maior sobre certas vidas terminarem como esta escrito por Deus. Não devemos tentar mudar o que já esta escrito nas linhas do destino. Estou certo de que deve tomar isto por lição.
Vivi continuava com os olhos negros fixos no nada. Os dois encontravam-se  na aconchegante sala de estar do exuberante sobrado que com a morte de Felipe, passava agora a pertencer a Vivi e a Demétrio. A porta que dava para o agradável jardim estava entreaberta e o sol de verão entrava-lhe pelas vidraças delicadas. Vivi sentada no aconchegante sofá de couro, olhava para o nada apavorada. Disse:
- Eu sonhei com a nossa morte Demétrio. Eu sonhei com um incêndio em que ambos perderemos as vidas de forma trágica.
Neste instante ouviu-se o som da campainha ecoar pela bela sala de estar.
- Deve ser Helen. –disse Demétrio levantando-se apressado. – Depois conversamos sobre isto mãe. Hoje é sábado. Nada de mal pode acontecer em um dia lindo como este. Até mais!-  e antes que Viviane pudesse argumentar o rapaz já colocara os óculos escuros sobre o rosto e atravessara a porta alegremente.- Mãe. –disse ele colocando o braço sobre o ombro de Helen.- Porque não vem conosco? –perguntou o rapaz notando logo teimosia no rosto triste da mulher.- Prometa-me que não irá meter-se em encrenca!
Ela acenou meio sem jeito e eles fecharam a porta atravessando o suntuoso jardim alegremente em direção ao carro de Helen. No entanto, enquanto Helen e Demétrio divertiam-se a muitos quilômetros dali na festa de aniversário do pai da jovem, Viviane, assustada tentava acalmar-se com um copo de uísque em meio ao sufocante calor da tarde dourada de verão. A mulher apreensiva sentia uma terrível ameaça no ar. Sua morte estava próxima. Ela sabia-o. A coisa estava rondando sua vida e ela necessitava impedir-lhe. Aflita ligou o som dos Paralamas do Sucesso e engoliu o uísque pensando em uma maneira de salvar-se.
Ela precisava da ajuda de alguém que realmente entendesse do assunto. Ela pegou o telefone e discou o número de uma amiga sua que era vidente e jogava cartas. Talvez de alguma forma, Julia, poderia ser lhe útil com seus conhecimentos sobre os mistérios e segredos do universo. Vinte minutos depois,  Julia e vivi encontravam-se em um restaurante próximo ao sobrado da dona de casa. Juliana era uma mulher negra, esguia e muito atraente para sua idade. Vestia-se muito bem, usava pequenos óculos e tinha aparência calma e sóbria.
As duas sentaram-se na mesa do belo e movimentado restaurante e Juliana disse:
- Vivi. Sinto algo estranho. Uma energia ruim no ar. –a mãe de Demétrio olhou a amiga assustada.- Algo esta terrivelmente errado com você, sinto como se uma coisa ruim estivesse para acontecer-te.
- Minha querida amiga. –disse a mulher com a voz sibilante.- Eu procurei-te porque... meu Deus! Relutei muito em encontrar-te. Mas acredito que não há mais como adiar nossa conversa. –disse Vivi chorosa.- Eu preciso de sua ajuda.-  e então enquanto Juliana ouvia –a atenta, a senhora contou detalhadamente todas as coisas horríveis que haviam-lhe acontecido desde a morte do marido.
Julia, olhava-a aturdida, e, após a narrativa, ficou em silencio por alguns instantes. Disse:
- Querida. Quero que fique calma e escute-me atentamente. –disse a outra séria. – Creio que está em sério perigo e que despertou a ira de um inimigo terrivelmente poderoso.- disse a mulher respirando fundo e tentando passar confiança.- A maioria das pessoas, pressente a própria morte.- disse a bela mulher.- Mas a grande maioria destas pessoas, conforma-se e aceita o destino. No entanto há o outro grupo. O grupo que não aceita e luta duramente para que a própria vida não cesse de maneira tão abrupta. Você faz parte deste grupo, Vivi, você lutou contra o destino. Você atravessou a pós vida, e quando o fez, aconteceu-te algo que acontece com algumas pessoas. Você voltou com um dom.
- Um dom?-perguntou Vivi com olhar triste.
- Sim. Você voltou com o dom de impedir a morte. Você prevê mortes. Você sabe quando as pessoas irão morrer. No entanto, seu dom, é um empecilho para uma criatura terrivelmente cruel e impiedosa. Muitas pessoas não comportam-se bem durante a vida, fazem coisas ruins, e quando morrem são levadas para um lugar muito ruim. O purgatório. Onde pagarão por seus pecados e crimes. As criaturas que reinam no purgatório a torturar as almas pecadoras, a muito foram banidas do céu, e como vingança, desejam desviar os humanos do caminho do bem para leva-los ao sofrimento eterno. Acontece que quando, uma pessoa, que levou uma vida errônea, tem a chance de mudar as coisas quando sua morte é impedida, quando esta pessoa tem uma segunda chance e pode apagar os próprios erros fazendo as coisas de forma diferente nesta nova chance, na próxima que as circunstancias levarem-na ao comprimento da própria jornada na terra, talvez esta mesma pessoa não vá mais ao purgatório, acendendo assim a ira destes seres infernais, e de um ser que encarrega-se de fazer a travessia destas pobres almas para o purgatório. Entende agora?
- Sim. –respondeu Vivi.- A coisa é esta criatura que leva as almas para o inferno.
- Sim. –respondeu Julia assustada.- É o ceifeiro. E esta criatura esta atrás de você amiga. Esta criatura não permitirá que você salve mais vidas que podem estar destinadas ao purgatório. Esta criatura deseja elimina-la! Esta premonição que teve hoje, antes de seu filho sair, é sobre o momento em que esta criatura virá acertar as contas contigo. É o momento em que o ceifeiro virá ceifar- lhe a vida por vingança.
- Meu Deus! –exclamou a senhora horrorizada. – E como posso impedi-lo? Como posso salvar-me? Há alguma espécie de magia ou ritual... alguma coisa que me livre desta criatura horrível?
- Eu sinto muito. Vou pesquisar um pouco e depois digo-te. O que esta a acontecer-lhe é muito raro querida. Certamente há poucos registros e textos que possam ser-nos de alguma importância. Mas acredite. Farei o possível. Esteja certa disto!
Naquela noite a senhora de fartos cabelos ruivos, teve sonhos inquietantes. Algo dizia-lhe que o ceifeiro estava por perto e que estava prestes a cumprir sua terrível vingança. Por vezes ela acordava com a sensação de estar sendo observada ou de ter sido tocada. A coisa estava brincando com ela. E era uma brincadeira terrivelmente cruel. Na manhã seguinte, como Demétrio dormira na casa de Helen, Vivi decidiu fazer uma caminhada pelo parque no centro da cidade para ver se conseguia acalmar-se daquela terrível aflição. No entanto, enquanto andava apressadamente em meio as frondosas arvores esverdeadas ao som dos pássaros afoitos em meio ao céu azulado da manhã, a mulher teve a impressão de ouvir uma gargalhada rouca.
No entanto não havia ninguém por perto aquela hora da manhã.
Ela voltou a caminhar, agora mais apressada, a brisa suave tocava-lhe o rosto sombriamente. As folhas agitavam-se como que a conspirarem. Ela sentou-se sobre um banco nervosa. Alguns caminhantes passaram sobre ela a tagarelarem distraidamente. Vivi sentia-se tonta e confusa. A brisa sinistra continuava a tocar-lhe o rosto. As grandes árvores verdes passavam por ela enquanto andava aflita.
- Vais morrer. –disse uma voz rouca.
Ela olhou para os lados atenta. Um homem com uma menina gargalhavam alegremente do outro lado da pista. Ela decidiu que talvez fosse o momento de abandonar o parque. Precisava voltar para casa. Não estava muito bem. Ela caminhou pela pista e discou o número de Demétrio automaticamente.
O celular do rapaz no entanto encontrava-se na secretária eletrônica.
- Filho. –disse ela. – Poderia vir até o parque buscar-me? – ela saia do parque e caminhava pelas ruas agora movimentadas da grande metrópole. Pessoas acotovelavam-se falando entre si e ao telefone. Carros barulhentos andavam em meio ao transito caótico. – Estou no trajeto do parque para o sobrado. Venha a pé. O transito esta terrível e eu estou passando mal. – Desorientada, ela olhava para a rua tentando localizar o caminho. Sem perceber entrou em um enorme complexo de apartamentos.
- Vais morrer. –disse novamente a voz sombria do ceifeiro maldito em sua mente. Ela caminhava apreensiva. As luzes piscavam macabramente. Ela observava o local desconhecido assustada. Ele estava por perto.  Ele iria mata-la naquele mesmo momento. É agora.  Dizia a voz rouca. Ela vasculhava os corredores com os olhos, lembrou-se da visão. Era aquele o lugar! Era aquele o maldito lugar. O lugar onde sua vida teria fim. Precisava sair dalí. Apressou-se em virar em direção a saída não muito longe. Neste instante uma explosão alastrou-se pelo corredor. As chamas brilharam a sua frente agora no seu caminho. Lambendo o corredor. Ela ouviu pessoas gritando apavarodas. As chamas incandescentes e amarelas hipnotizavam-a. Conforme-se. Dizia a voz maldita. Ela começou a caminhar em meio ao fogo dourado brilhante que varria e destrúia o corredor de mármore. Sua roupa estava ensopada de suor e seu nariz abafado e ressecado pelas fumaças que brotavam do incêndio. Ela continuava a andar. Coisas quebravam-se, destruíam-se e explodiam em torno dela. Seus olhos ardiam em desespero e calor. Ela atravessava corredores e pessoas desesperadas passavam por ela gritando. Viviane sentia suas pernas enfraquecerem-se, sufucava-se rapidamente com o calor. Uma viga soltou-se e caiu resplandecente contra o chão. Ela virou-se desesperada. Precisava encontrar a droga da saída. Precisava manter-se longe daquelas colunas que desabavam violentamente arruinando a construção. Pessoas passavam por ela, ela caminhou mais um pouco, um homem encontrava-se com uma corda presa ao pescoço. Estava morto. Ela entrou em uma ante sala varrida pelo fogaréu, enormes colunas de mármore tombavam estatelando-se resfolegantes contra o chão.
- Meu Deus! Ajude-me! –exclamou ela em prantos enquanto uma explosão varria parte do enorme salão. Ela continuava a seguir debilmente. Uma janela explodiu e cacos de vidro voaram-lhe sobre o rosto. As chamas pareciam gargalhar em uma canção maldita e fúnebre. Brilhando e alastrando-se em meio as paredes arruinando-as. Ela caiu contra o chão. Foi neste instante que ouviu passos apressados, a enorme coluna agora prendia suas pernas dormentes. Ela sentiu a força esvair-se lentamente aos poucos. Morra! Morra! Morra! Sussurravam as chamas.
- Vai explodir! –alguém desesperado gritou ao fundo.
MORRA! Morra! MORRA!
- Mamãe!- exclamou Demétrio sorrindo.- Finalmente te achei mamãe? –dizia o rapaz em meio as chamas.
De-repente ela lembrou-se da premonição. No momento em que o filho conseguisse ajuda-la o prédio explodiria de vez matando a ambos. Ela gritou:
- Querido! Querido! Escute-me bem! – dizia ela tentando reconhece-lo em meio a fumaça.- Preciso de ajuda. Vá buscar ajuda! –disse ela desesperada.
- Eu vou tira-la daí mamãe. Espere um instante sim.
Ela olhou-o apavorada:
- Não! –exclamou.- É muito pesado. Precisa ir encontrar ajuda. Vá! Agora! Ou não resistirei! – gritava. Com toda sua vida ela gritava. Demétrio indeciso  virou-se, correndo em direção a porta. Ela sorriu. E como sorriu. Sorriu enlouquecidamente. Salvara Demétrio! Morreria mas salvara Demétrio. Em breve iria para bem longe daquela coisa. Iria para um lugar bom. Onde não haveriam premonições ou acidentes ou mortes. Ela sorriu. Ela estava feliz. O fogo já não mais a queimava. Porque ela enfim teria paz. Ela viveria para sempre. E então...
O fogo brilhou resplandecente, dourado. E tudo finalmente acabou. As chamas varreram o local  impiedosas. E a dor acabou. A dor acabou para todo o sempre.
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Dois meses depois Demétrio colocou flores sobre a foto da mãe e de dezenas de pessoas.
- Eu nunca esquecerei-a.-disse o rapaz infeliz.- Ela sempre será uma heroína para mim. A maior heroína que conheci. Ela era uma mulher especial e... e agora Deus há de cuida-la eternamente, porque, por Deus Helen, eu amava muito aquela mulher. –disse o rapaz abraçado a jovem garota com lágrimas nos olhos.
- Esta tudo bem agora querido. Ela o amava mais do que tudo neste mundo. –disse a jovem com um sorriso triste.- Sei, eu sei que ela esta feliz pelo homem que se tornou. Que ela esta feliz. Que ela esta esperando-o. E que algum dia ambos haverão de encontrar-se em um lugar melhor. Mas agora, agora precisa viver. Este é o presente que ela deixou-te com amor! A vida! Viva Demétrio! Seja feliz por ela!
Eles observavam e enorme monumento deixado para as vítimas do incêndio do Prédio Maria das Dores. Ele sorriu.
- Eu a amo Helen querida. Eu a amo. Quero ter um filho com você, querida.
- Tudo ao seu tempo. –disse ela enquanto caminhavam pelo jardim do que erguia-se majestoso onde um dia fora um gigantesco predio prédio. Demetrio abraçou-a com força. Aquela garota especial era tudo o que ele tinha desta vez. E era a garota que ele amava como ninguém mais. Ele sabia que no futuro poderia faze-la muito feliz e que amariam-se muito pois ambos completavam-se de forma inimaginável. Eles caminhararm até o carro enquanto o sol dourado banhava a tarde de sábado na bela metrópole.O carro seguia lentamente pelas ruas enquanto Helen abraçava-o e de forma sedutora. O carro seguia lentamente.
- Helen. –chamou ele quando finalmente chegaram no sobrado. – Acorde.
Ela sorriu com carinho.
-  Olá amor. –disse ele com delicadeza. – Chegamos, Eles desceram do carro e caminharam até a mansão.- Helen?- perguntou assustado. – Você ouviu isto?
- Não querido. –disse ela sorrindo.- O que ouviu?
- Não sei.- disse ele.- Uma espécie de sussurro talvez.
- É imaginação sua. –disse ela.
- Talvez. –disse ele e entraram no casarão. 
 Fim

sábado, 21 de abril de 2012

História Sombria de Hoje: O Acidente (3)

Nesta nova História Sombria Viviane prossegue sua vida após o tragico acidente que tirou a vida de seu marido. Agora, com o dom de prever o futuro, nossa heroína enfrentará terríveis desafios. Neste capítulo, uma morte tragica levará esta senhora a repensar sobre seus preceitos...

Terceira Parte
 
4
Viviane e Helen faziam compras em uma loja de departamentos. Viviane colocou um vestido na sacola usada para guardar os objetos a serem comprados. Helen tagarelava alegremente sobre os colegas da faculdade e as dificuldades do novo emprego como residente em um hospital.  Helen era uma garota de cerca de um metro e meio, os cabelos formidavelmente encaracolados estavam presos em um perfeito rabo de cavalo e usava um vestido branco simples de verão que combinava com a fita no cabelo que era um de um branco um pouco mais escuro. Nos pés usava um grande sapato bege de salto alto. A loja era enorme e toda pitada de anil. As roupas nos cabides que ficavam a disposição para serem pegas eram atraentes e sofisticadas. Helen pegou uma atraente camisa de gola polo e mostrou para Viviane:
- Acha que combina com Demétrio? Atraente não? Talvez para irmos ao baile.-  Viviane não ouviu a pergunta da jovem.- Não parece nada bem. Algo aconteceu-lhe?
- Tive uma nova visão.- disse a mulher. – Eu havia- me esquecido delas. Outras pessoas morrerão desta vez. E serão muitas. Muitas!
- Vamos deixar estas coisas aqui, vamos tomar um sorvete e você irá contar-me detalhadamente onde e quando acontecerão as próximas mortes. –disse a jovem nervosa. As duas foram até um restaurante e pediram milk-shake. Viviane estava aflita e muito apreensiva. Sentou-se desajeitadamente numa cadeira sentindo o frio cadavérico da manhã nublada. Porque ela fora amaldiçoada por aquele dom? Odiava-se por não haver morrido no maldito acidente. As mortes que vira... As pessoas... Sentia-se horrorizada e terrivelmente abatida naquela manhã. Helen retornou com os milk-shakes e perguntou:- O que acontecerá desta vez ? Temos de impedir isto.
- Não. Como evacuariam todas as áreas em tão pouco tempo?- perguntou-se Vivi.- Isto se eles acreitassem-me! Desta vez morrerão dezenas de pessoas em um atentado terrorista! Setenta e sete pessoas serão mortas. –disse a mulher empalidecida.- E sabe-se lá quantas sairão feridas. Não há como impedir. Não há o que fazer. Eu estou desesperada.
- Onde?-perguntou Helen com medo.- Onde?
- Na Noruega.
- Temos de impedir. Temos de fazer algo, Vivi. Eu jamais poderia viver com a culpa por estas mortes. –disse a jovem.
Viviane respirou fundo e fez que não com a cabeça dolorida:
- Ninguém acreditaria em nós. –afirmou.- Me chamariam de louca. Você sabe tão bem como eu que ninguém acreditaria. Seria uma estupidez. Não posso evitar. Eu... apenas sei... eu apenas sei, mas não posso evitar!
- Porque não conta as autoridades?- disparou a jovem nervosa.-  Algo esta passando-se com você? Porque fica em silencio antes de mortes tão horríveis como esta?
- Eu não posso. Eu... tenho medo. –disse ela.- Eu tenho medo!
Na manhã seguinte os jornais anunciavam sobre a Noruega estar de luto graças as dezenas de pessoas assassinadas barbaramente em um terrível ataque terrorista. Enquanto acompanhavam as notícias no jornal, Vivi pode sentir o olhar horrorizado de Helen encarando-a. Vivi soube então que jamais seria a mesma. Seria sempre assombrada pela culpa. Vivi nunca mais seria a mesma depois daquelas mortes...
Ela não mais conseguia dormir...
Tinha medo dos pesadelos! Quando dormia a coisa vinha visita-la macabramente, fazendo ameaças e brincadeiras cruéis. Quando acordava ela não tinha nenhum arranhão ou corte dos que a coisa fazia-lhe durante as madrugadas malditas, mas ela sabia que a coisa estava por perto. Que a coisa não queria que ela comentasse com ninguém suas visões de mortes e tragédias. Ela sabia que a coisa queria pegar-lhe... O tempo passava. Por vezes ela ficava meses sem ouvir a vozes, mas elas  voltavam, elas sempre contavam-lhe coisas. Certa vez ela ouviu: Manamorte. E na manhã seguinte sua irmã foi encontrada morta no quarto de sua casa. No enterro da senhora que era ainda razoavelmente jovem e tinha um filho pequeno, vestida com blusa negra, Helen encontrou Vivi parada com o rosto sombriamente preocupado e duro. Helen aproximou-se:
- Você sabia não é?
- Sim. –respondeu Viviane.- De certa forma sim. Eu sabia.
Helen colocou a mão sobre o ombro de Viviane tentando dar-lhe algum consolo. Mas o rosto da mãe de Demétrio estava duro como uma pedra de granizo. Os olhos estavam vigorosamente pousados sobre o agora órfão e mirrado garotinho filho de sua falecida irmã. Quantos mais a coisa iria pegar? Quantas outras vidas roubaria? Naquele instante enquanto o caixão era abaixado lentamente levando a irmã para o túmulo, Vivi decidiu que precisava ser forte. Precisava ser inteligente. Precisava ser esperta.
Aquela mulher velha e solitária decidiu enfim que precisava enfrentar a coisa.
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As festas natalinas de final de ano chegaram. Vivi estava preocupada em arrumar a casa para a chegada dos parentes que viriam para a ceia. Com a ajuda de Helen ela preparava um peru assado regado com vinho e frutas silvestres, uma maionese e uma bela e apetitosa salada marroquina seriam alguns dos inúmeros pratos que a mulher serviria na ceia. Demétrio ajudava decorando alegremente a casa para a festa. Enquanto carregava uma enorme pilha de objetos para decoração deu um tapa nas nadegas de Helen com um sorriso debochado:
- Eu adoro ver você nas manhãs de natal.
- Você adora comer o peru de natal que é receita da minha avó.- corrigiu ela com um sorriso feliz. – Agora trate de terminar a decoração antes que eu te enfie esse peru na cabeça!- ele fez cara de manhoso e ela sorriu alegremente. Apressada Vivi picava pimentões amarelos.
- Eu estou tão feliz que vocês estejam namorando firme. Mal posso esperar até ter um netinho! –exclamou.
- Deus que me livre! –exclamou Helen com um sorriso engraçado.- Não jogue mal agouro em mim não hein! Se você obteve uma premonição quanto a isto afirmo-lhe que viu errado. –disse ligeiramente assustada.
- Na verdade ultimamente eu não...-começou a dizer a outra quando ouviu uma voz sussurrando sobre seus ouvidos sorrateiramente: Chacina, família! Hoje! Avenida Fonseca!!!
Viviane sentou-se sobre a cadeira, tonta. Haveria uma chacina. Uma família inteira seria morta na Avenida Fonseca a algumas quadras de seu bairro. Ela precisava impedir. Precisava ligar para a polícia. Não deixaria outras crianças ficarem órfãs como o sobrinho. Precisava impedir.
- Você me empresta seu celular, querida?- perguntou nervosa.
-  Claro. –respondeu Helen procurando o celular no bolso da calça jeans. Ela podia ver os corpos espalhados pela casa. O homem chorando e depois atirando na cabeça com um revolver. Helen entregou-lhe o moderno celular rapidamente.
Ela discou o número da polícia e uma voz cansada atendeu:
- Alô. Polícia Militar de Belo Horizonte.
Ela tentou parecer sóbria embora sem êxito:
- Vocês devem dirigir-se hoje para a avenida Fonseca. Um homem matará a mulher e os dois filhas em uma das casas de lá.
- É mesmo? –perguntou a voz do outro lado da linha .- A que horas?
Vivi ficou em silencio por alguns instantes. Em sua visão não dava para saber ao certo a que horas os crimes aconteceriam:
- Eu não sei. Mas é hoje. Durante o dia.
- Certo. E a senhora sabe onde o homicídio acontecerá?
- Não.- respondeu ela infeliz.- Mas é verdade. Juro-lhe! Não poderia mandar uma viatura para lá?
- Senhora!- exclamou a voz desacreditada.- Hoje é natal, não há muitas viaturas disponíveis! A senhora não sabe nem sequer onde é. Além do mais é uma avenida enorme, não podemos sair a bater de porta em porta perguntando as pessoas se  há um maníaco homicida em sua casa.
- São crianças. Eu vi em minha premonição. Não estou a mentir. Tudo o que digo acontece!- mas o telefone já havia sido desligado do outro lado da linha pelo imprestável policial. Ela sentiu uma voz rouca dizer em seus ouvidos: AGORA. Ela olhou para Helen que encarava-lhe curiosa.- Helen ligue novamente para o polícia e diga que ocorrerão mortes agora na avenida Fonseca. Preciso impedir. –disse ela virando-se e desaparecendo apressadamente na porta do jardim.
 AGoRa. Repetia a voz em sua mente. O carro seguia pelas ruas cheias de gente fazendo compras. A voz continuava a repetir em sua mente: AgOrA. Ela sentia um homem forte encontrar a esposa e preparando um enorme caldeirão de sopa de cenoura fumegante para as crianças em uma casa simples e pequena.
 - Mamãe? Não teremos peru hoje? –disse uma garotinha pequena com os cachinhos desgrenhados olhando suplicante para a mãe triste.
- Não querida. –disse ela com uma falsa promessa de sorriso nos lábios doentios.- No ano novo prometo que estaremos num lugar bem melhor do que este com um peru e um bolo de chocolate delicioso esta bem?
- Bolo de chocolate? –perguntou a garotinha ansiosa enquanto um homem  entrava na casa com os olhos tristes.- Bolo de chocolate? –perguntava a menina com o sorriso no rostinho.- Com cobertura mamãe?
- Sim querida.- ressoou a voz nervosa da mulher.- Com calda de chocolate.
AgOrA. Viviane tentava acalmar-se enquanto finalmente se aproximava da Avenida Fonseca. Tudo em que a mulher pensava era em impedir o homicídio.
A mulher chorava em uma velha cadeira e homem misturava o conteúdo de um vidro na sopa lentamente.
- Tem certeza de que realmente é nescessario?- perguntou a mulher olhando-o confusa.
      Onde diabos seria esta maldita casa? O carro seguia pela avenida Fonseca.
- Queridos!- exclamou a mãe triste.- Trouxe sopa de cenoura com ervilha. Comam.
- Sopa de cenoura de novo? –perguntou um rapazinho com um rosto emburrado.- Não tem carne? Odeio sopa.
- Se comerem comprarei sorvete.- disse a mulher colocando o estranho caldeirão sobre a mesa e servindo sopa para as crianças e o marido..
Viviane entrou em uma velha e decrepta casa com um grande terreno de terra. Bateu na porta aterrorizada. Não houve resposta. O local encontrava-se mergulhado no silencio como se que completamente vazio. Mas ela sabia... Estavam lá... Em algum lugar! Começou a caminhar apressada em meio embolorado corredor lateral cheio de entulho. Precisava impedi-los! Mas onde estavam? ONDE?
 A música continuava a tocar. Era algo sobre lagartixas encantadas. Que espécie de música maluca era aquela?
- Acalme-se.- disse para si mesma.  Viu uma porta semi aberta nos fundos. Correu apressadamente e abrindo-a com mãos tremulas. – É aqui. –disse.- É aqui!- segurou a porta vacilante empurrando-a lentamente. Um homem segurava uma pistola na mão direita preparando-se para dispara-la.- Pare!- gritou ela.- Onde estão as crianças?
Ele olhou-a:
- Eu... –disse.- Eu... não posso. Eu não posso! Eu não pude... Eu não pude...- ela ouvia crianças chorando baixinho. Ela abandonou apressadamente o homem ainda com a arma na mão.- Eu não consegui. –dizia tensa. Ela abriu a porta do quarto ao lado.
Seu coração saltou quando viu a mulher de suas macabras premonições caída com a boca arquejante. No radio uma música infantil tocava.
- Prometam para mamãe. –pedia a mulher ensanguentada.- Prometam para a mamãe que serão fortes. –dizia a mulher com os grandes olhos esbugalhados.
As três crianças sentavam-se ao lado do corpo moribundo em pranto. A mulher com um olhar triste perguntou a Vivi:
- Quem é você? –e depois:-Impeça Damião! Eu lhe imploro!
Neste instante o pai das crianças, Damião entrou no quarto com uma arma em punho.
- O que faz aqui? –perguntou.- Não entende como odeio vadias intrometidas?- e então ela soube que a coisa controlava o homem. Ela soube que esta estava furiosa com ela por tentar impedir-lhe. A coisa controlava os pensamentos de Damião e queria sangue. - Parada! –exclamou Damião sombrio.- Parada ou a mato!- Assustada, Viviane começou a pensar em como poderia salvar-se. Precisava distraí-lo.
- Acalme-se... –começou a dizer ela.
- Agora deixará de ser a droga da nova pedra no meu sapato. Foi divertido brincar com você. Espera. Talvez tenha chamado a polícia! –exclamou o homem desvairado. E atirou. No entanto Vivi, já jogava-se contra ele desesperadamente tentando agarrar a arma que atirava ensandecidamente.
- Fujam crianças! Fujam. –dizia a mãe antes de morrer.
Sem forças ela conseguiu agarrar a arma de fogo do homem enquanto ele caiu derrubando um jarro de flores com a arma na mão. Ela pegou a arma de fogo. Antes que suas pernas doloridas pudessem levantarem-se o homem segurando um enorme e pontiagudo caco do jarro quebrado segurava-a e tentava rasgar-lhe a garganta. Ela engatilhou a arma e atirou agilmente.
O som das sirenes da polícia soava distante.
O cadáver do terrível Damião caiu sobre o assoalho.
(Conclui na Proxima Parte.)

sábado, 14 de abril de 2012

História Sombria de Hoje: O Acidente (2)

Na História Assombrada de hoje prosseguimos com a história de Vivi, que após sobreviver a um tragico acidente agora encontra-se em um hospital para a recuperação. Neste epísodio nossa pacata dona de casa terá uma premonição estarrecedora. Poderá ela impedi-la de concretizar-se?

Parte Dois


Viviane era uma mulher bela para sua idade. Possuia dois belos olhos negros e cabelos castanho dourados. Depois do acidente com seu marido, teria sua vida mudada de forma brusca. A primeira premonição que ela teve foi no hospital, ela estava deitada sobre a cama conversando com Demétrio quando de-repente ela escutou uma voz rouca e sombria dizer-lhe: Água No Japão. Ela sentiu um calafrio. Demétrio, seu filho, notou sua fisionomia agitada:
- O que houve mãe? Parece-me apreensiva.
- Hoje. Pessoas vão morrer. Muitas delas. No Japão hoje.
Demétrio sorriu desconfiado:
- A senhora quer um copo de suco?- disse ele.- Não comeu desde o acidente.
- Seu pai morreu! –exclamou Vivi com cólera.- Seu pai esta morto Demétrio! Não sabe o quanto estou infeliz. –disse ela bruscamente.- Acredite em mim. Eu também teria morrido se não houvesse saído daquele carro. Eu também estaria carbonizada naquela droga de despenhadeiro se não fosse por meu instinto.
Ele sorriu tranquilizadoramente:
- Esta tudo bem agora mãe. Você esta viva e estou aqui. Do seu lado. Nada de mal aconteçerá-lhe. A morte horrível de papai deve ter-lhe sido muito difícil. Sei que esta inconformada. Mas farei de tudo para que possamos de alguma forma lidar com isto. Nós conseguiremos superar mãe. Eu prometo-lhe.
- Uma coisa ruim vai acontecer no Japão! –exclamou Vivi nervosa. – Esteja certo disto querido! Eu o sei de alguma forma. Algo ruim esta para acontecer! Algo ruim esta a solta e quer mortes! Muitas mortes. Centenas talvez!
Demetrio era alto de grandes olhos negros, cabelos louros e pele bronzeada. Naquele momento o rapaz encontrava-se preocupado com a mãe. Sua mãe não falava muito e parecia de alguma forma aterrorizada e arredia. Ele não entendia o que estava havendo. O que lhe afligia. Ela dizia haver tido sensações estranhas sobre a própria morte antes de o carro ser arrastado pela encosta com o caminhão. No entanto Demetrio não conseguia acreditar muito sobre sua mãe estar tendo visões ou premonições. Isto era coisa de filme. Era simplesmente uma grande loucura! Talvez Viviane houvesse considerado a possibilidade de um acidente por causa da chuva, e agora de certa forma sentisse-se culpada pela morte do marido.
- Demétrio! –exclamou Viviane.- Por favor! Acredite em mim! Talvez possamos evitar estas mortes! Temos de falar com a polícia!
Neste instante a porta abriu-se e Helen, a namorada de Demétrio entrou:
- Olá. –disse a jovem com um sorriso feliz no rosto.- Eu trouxe algo para comermos.
Naquela tarde Helen ficou com Viviane cuidando-lhe enquanto  Demétrio tomava banho no hotel. Eram dez horas quando uma jovem misteriosa entrou no quarto. Ela gargalhou assustadoramente. Usava uma túnica hospitalar e sorria macabra:
- Você sabe.- disse com um sorriso sombrio.- Eu sei que você sabe. Apartir de agora sempre saberá!
Helen olhou a mulher assustada. Vivi sentiu um arrepio percorrer seu corpo. Algo lhe dizia que aquela mulher misteriosa que adentrara no quarto subitamente era de alguma forma como ela. Era como se houvesse uma energia na mulher que fizesse com que identificassem-se. A mulher continuava a repetir:
- Você sabe. –disse sombria.- Eu sei que você sabe. Eu sei de tudo. Eu sei sobre o mal! E o mal esta atrás de você! O mal está atrás de você.
Neste instante algumas enfermeiras entraram no quarto e seguraram a mulher:
- Sofia, acalme-se querida. –diziam.- Precisa voltar para o quarto! Esta tudo bem.
- As vozes irão atormenta-la. –dizia a mulher misteriosa.- Irão enlouquece-la. Eu tenho um dom e você também tem. São dons diferentes. –gritava tentando soltar-se da enfermeira. - São dons muito diferentes. Eu posso sentir quem sabe. Você... você é quem sabe. Você esta em perigo.- dizia enquanto as enfermeiras arrastavam –a pelo corredor e Vivi ficava a encarar-lhe encostada na porta.- Tome cuidado! A coisa irá pega-la. A coisa irá pega-la se tentar impedi-la!
Assombrada pelas palavras da misteriosa mulher, algumas horas depois em seu quarto Viviane tentava alertar Helen sobre as mortes no Japão:
- Algo vai acontecer no Japão! –exclamou a mulher.- Precisamos impedir, menina!
Percebendo a aflição e a angustia de Vivi, Helen disse:
- Tudo bem. Ligaremos no jornal da tarde para que a senhora veja que não esta acontecendo nada no Japão. – disse sorrindo alegre.- Veja só. –disse a jovem ligando o aparelho de t.v. com o controle remoto. Assustada Viviane pegou um copo de água sobre a mesa e assistiu ao jornal aflita enquanto os apresentadores davam as notícias do dia sem mencionarem o tal desastre no Japão. A senhora sorriu aliviada quando o noticiário finalmente terminou.
- Viu? Não houve absolutamente nada nada no Japão hoje. E acredite em mim,- tagarelava a jovem enquanto começava a folhear uma revista de fofocas. – Se há um país propenso a mortes trágicas este país é o Japão. Fiquei até preocupada com uma possível morte no país. –disse fechando a revista. – A senhora daria crédito as visões. Mas não houve nada. O Japão não foi devastado por uma tragédia de centenas de mortes! Agora descanse um pouco que esta tudo bem. –disse a jovem reconfortantemente com um sorriso acalmando momentaneamente a senhora. No entanto, as palavras sinistras da mulher da ala psiquiátrica, ressoavam ainda em sua mente, agourentas... estarrecedoras... suplicantes... lúcidas...
Mais calma Viviane passou parte da tarde com Helen conversando animadamente. Já eram duas horas quando a enfermeira veio trocar os curativos que cobriam os cortes profundos que a mulher fizera nas mãos enquanto tentava desesperadamente quebrar os vidros do carro tentando fugir. Mas assim que a enfermeira saiu, Viviane voltou a ficar agitada:
- É agora. –disse de-repente.
- O que disse?
- Eu não disse nada. –respondeu Vivi que cochilava sobre a cama. Mas a jovem e bela  Helen de alguma forma teve a estranha impressão de ouvir  a mulher dizer algo. E  de alguma forma, a garota que cuidava pacientemente da sogra naquela manhã húmida e ao mesmo tempo ensolarada, pensou assustada, enquanto folheava animadamente a revista de amenidades, se as premonições que sua sogra dizia ter de forma tão lúcida não poderiam de alguma forma realizarem-se. Ela nunca vira a sogra arredia daquela maneira. Era como se forças ocultas a incomodassem. Poderia de alguma forma estar certa quanto a uma possível tragédia no Japão. Poderia isto realizar-se?
E realizou-se. Naquela tarde quando Demétrio voltou  de casa para ficar com a mãe , esta já mais calma, deitada sobre a cama, percebendo o rosto estranho do filho perguntou:
- Querido. Não aconteceu algo em especial, aconteceu?-perguntou a senhora de-repente tomada de medo.
Ele olhou-a. Estava nervoso e constrangido:
- Aconteceu uma coisa horrível hoje...- disse ele assustado. Helen que acabara de voltar para uma nova visita sentava-se ao lado do rapaz.
- Dona Viviane. Desculpe-nos por não acreditarmos na senhora.
Demétrio bateu com força contra o ombro da jovem cutucando-a:
- Ora! Foi apenas conhecidencia, meu amor! Só isto!
- O que houve? –perguntou Viviane. Será que estavam certas as suas suspeitas. Será que...- Houve um tsunami no Japão. –balbuciou a mulher constrangida.
- Sim mamãe. –disse Demétrio desconfiado.- Estão todos comentando.
Naquela noite, em todos os notíciarios falava-se apenas sobre o tsunami causado por um terremoto em grande escala que causara incontáveis vítimas.

#####
Felipe arrastava-se pelo seu quarto. A boca roxa sorria malignamente, os olhos esbugalhados olhavam-na  sombrios. Ela observava o marido sem acreditar em como era bom ve-lo novamente, em vê-lo vivo ao seu lado. No entanto ela não conseguia reconhece-lo. O rosto trazia uma expressão sorridente, um sorriso estranho e macabro nos dentes muito brancos. A pele estava roxa e inchada. Mas o sorriso era perturbador. Ela nunca vira o marido sorrir daquela forma. Era uma espécie de máscara doentia e enlouquecida que cobria o rosto de Felipe agora.
- O que quer?-perguntava ela, no entanto ele continuava a segura-la com uma força descomunal nas mãos ossudas e apenas gargalhava e gargalhava enquanto ela tentava soltar-se desesperadamente.- O que quer? –perguntava ela tentando esquivar-se dos dedos ossudos e do sorriso malévolo.
- Eu vou pega-la. –finalmente disse ele com uma voz áspera e rouca.- Eu vou pega-la. Não pode esconder-se. – dizia Felipe.- Não poderá salva-los! Eu vou pega-la! Vou pega-la! Juro!- e segurava-a gargalhando e puxando-a até que ela viu fogo, muito fogo e ele levava-a entre o fogo e as trevas e ela era queimada e engolida pelas chamas.
Viviane acordou assustada. Logo percebeu que estivera sonhando. Seu corpo estava molhado e um pesadelo antigo lhe voltou a mente. O acidente em que quase morrera a um mês atrás voltou a sua mente. E então ela lembrou-se também da visão das mortes no Haiti. A coisa pegara varias pessoas no Japão. Ela sentiu um calafrio, levantou-se e foi até a cozinha tomar água, haviam se passado varias semanas após o acidente na colina e desde então, não havia sido incomodada novamente por quaisquer maus presságios. Mas ela sabia que a coisa queria mais vítimas e que logo ela seria alertada. E talvez desta vez conseguisse impedi-la.
- Mamãe? Esta bem? Eu a ouvi gritando lá no quarto. –disse  Demétrio preocupado.
- Apenas tive um sonho ruim. –disse a mulher forçando um sorriso.- Vá dormir querido. – o rapaz afastou-se apressadamente e ela se sentou sobre a cadeira ofegante. Não queria voltar a dormir. Talvez a coisa ainda estivesse por perto... Talvez fosse melhor espera-la ir embora... 
...Dormir não era mais seguro...

 Continua...



domingo, 8 de abril de 2012

História Sombria de Hoje: O Acidente


No Histórias Assombradas de hoje...
Conheceremos Viviane, uma mulher madura e de meia idade que levava uma vida agradavel e comum. Mas por ironia do destino, essa doce mulher sofre um terrível acidentes e coisas ruins começam a acontecer-lhe, será que esta pratica dona de casa conseguirá sair viva depois de enfrentar seus mais sombrios medos e uma criatura das sombras que fará de tudo para elimina-la? Descubra a seguir:

O Acidente 
Primeira Parte 
Viviane dirigia o carro branco enquanto seu marido Felipe dormia calmamente no banco de passageiros. A mulher distraída observava a agradável e aconchegante  paisagem paradisiaca que rodeava-os enquanto o carro seguia lentamente em direção a Petrópolis. Enormes pinheiros, ipês e velhas arvores frondosas, colinas verdejantes e o céu límpido e azul resplandecente não deixavam de encanta-la deixando-a  extasiada e calma. Uma brisa fresca tocava-lhe os cabelos tingidos de cor de mel e seu rosto já tomado por algumas rugas, graças a idade que começava  a denunciar seus 58 anos, mostrava satisfação.
O sol quente e escaldante brilhava no céu iluminando encantadoramente as fazendas e os desfiladeiros de campos e vales. No radio ligado baixinho tocavam alguns clássicos da mpb e da musica erudita a que seu filho Demétrio e a namorada haviam presenteado-a. A jovem que agora era apaixonada por seu filho possuía um excelente gosto musical, e cantava e tocava como uma verdadeira e encantadora diva, era bom que a garota ajudasse a colocar um pouco de juízo na cabeça um tanto quanto vazia e desajuizada do filho. E agora graças ao esmero da jovem, ela podia dirigir, sobre aquele céu azul brilhante ao som daquela música deliciosa.
Neste instante os roncos sonoros de Felipe tornaram-se um balbuciar constrangido:
- Querida? Dormi por muito tempo?- perguntou-lhe o homem remexendo-se desajeitadamente e acendendo um cigarro.
- Não, anjo, acho que você cochilou por cerca de trinta minutos mais ou menos. Como foi o sono,  teve algum sonho em particular?- indagou timidamente a mulher observando um grupo de araras barulhentas cruzarem o céu em uma algazarra enlouquecida.
- Bem... –disse o homem ajeitando os óculos.- Eu tive alguns sonhos estranhos, nada interessante. Mal posso esperar para chegarmos na cidade para que eu possa ver minha irmã... –disse o homenzinho com um olhar sombrio.- Não sei porque, mas estou tendo uma sensação estranha desde que iniciamos a viajem, meu amor.
- Sensação estranha?-perguntou ela com um sorriso nervoso.- Ora Felipe! Deve ser aquele filme que você assistiu na t.v. a cabo do hotel ontem.
Ele olhou-a confuso e pálido. Viviane sentiu um estranho arrepio quando o homem disse:
- Acho que não vamos chegar a Petrópolis desta vez querida. Nós vamos morrer no caminho.
Ela sorriu nervosa:
- Ora Felipe, isto é loucura! –exclamou a mulher.- Não fale coisas assim! Francamente! Esta a me assustar!
- Nós não chegaremos! –voltou a exclamar o homem. – É como se uma voz interna ficasse a me repetir isto. –disse apreensivo.- É como se meu instinto estivesse me dizendo isto. Não vê esta estrada? Este sol maravilhoso? É como se fosse uma espécie de despedida. É como se esta beleza encantadora fosse algo anormal. Surreal. Esta tudo perfeito demais, pode entender-me Viviane?
A mulher olhava-o assustada. De certa forma ela também tinha aquela sensação. Algo gritava-lhe que qualquer coisa estava muito errada naquela viajem. Algo dizia-lhe que ela não veria a irmã e que ela não voltaria a ver Demétrio. Era uma sensação estranha e agorenta da qual ela tentava livrar-se repetidas vezes, mas que permanecia em seu intimo cobrando-lhe e afligindo-lhe macabramente.
- Isto é loucura.- sentenciou ela. O carro continuava a seguir pela rodovia ao som da música chorosa de Marisa Monte. Uma apreensão... O mal presságio continuava no ar... ASSUSTANDO-OS...
Viviane remexeu-se nervosa no veículo. Algo estava errado. Algo estava terrivelmente errado. ALGO ESTAVA ERRADO. A sensação atormentava- lhe, envenenava- lhe lentamente. A hora estava chegando. Ela precisava acalmar-se. Relaxar... Iria morrer em breve... tudo estaria bem em breve, não havia como evitar, em breve ela mergulharia na escuridão eterna... Ela olhou apreensivamente para o marido que dormia relaxado com a cabeça encostada sobre o delicado e macio banco do carro importado. Ele parecia tão bem... Era como se de alguma forma ele houvesse conformado- se com aquela sensação horrível. A sensação da morte. Uma garoa fria batia sobre o teto do carro, a paisagem tornava-se um verde húmido e encantado. As folhas das grandes árvores agitavam-se lentamente. Ao lado do carro surgia a visão paradisíaca de um grande vale com uma floresta e belas e atraentes propriedades rurais. O céu cinzento cobria pastos verdejantes onde as criações de gado paasseavam serenamente. As plantações de rosas e as matas agitavam-se, como que a chama-la, como que para agradá-la.
- Eu irei... eu irei morrer...- sussurrava Viviane com medo. – Oh Deus! Não quero!!! Não! Eu não quero morrer!!! –grunhia a mulher segurando com força no volante sem deixar-se encantar com a beleza hipnotizante que cercava-na.- Eu não quero! Oh céus! Oh céus!
Uma dor de cabeça invadia-a. Precisava fugir. Precisava sair daquele carro enorme e desagradavel. Estava sufocando-se naquele banco estofado. Era como se estivesse prestes a ser engolida... Não se acalmaria como o marido, não se contentaria em ter a vida interrompida em uma droga de acidente naquela maldita rodovia. A chuva aumentava. ErA AgOrA. Ela sabia. A qualquer momento. O carro iria derrapar e cair no despenhadeiro em meio as rochas.
- Eu não aceito! –dizia a mulher confusa e assustada. – Eu aceito morrer! Não permitirei-me morrer! –baulciliava. A chuva caía. Tornava-se tempestade. Era aquela a chuva que a mataria! Ela freiou o carro no acostamento. Aquilo era loucura! Estava atrasada! Nescessitava chegar a Petrópolis o mais rápido possível. Não podia simplesmente parar naquele acostamento e esperar aquela tempestade parar. Ela pensou em voltar a dirigir. Não podia desistir de uma viajem por causa de um mal presságio enloquecido? Podia? O vento uivava. Ela ligou a chave do carro. É AGORA. O carro grunhiu arrastadamente. Um caminhão surgiu sibilante  descendo a estrada em direção ao carro. É AGORA. Ela colocou a mão sobre a maçaneta do carro, mas esta recusava-se a abrir. É AGORA. É  aGoRa. O caminhão perdeu o freio e derrapou em direção a encosta. Hahaha! É agora!
Viviane desesperada tentava abrir a porta. Começou a bater contra o vidro claustrofóbica.  VAIS MORRER! Ahahahah! VAIS MORRER! Ela continuava a bater. De novo. De novo e de novo. O caminhão pendia sobre o carro amassando a parte dianteira.
O vidro começou a ceder lentamente... O caminhão bateu contra o carro fazendo com que este se inclinasse. O vidro estava despedaçando-se lentamente. Ela continuava a bater. O carro pendia na encosta, logo desceria e seria o fim. Viviane virou-se assustada e pegou o extintor de incêndio, reunindo toda sua força fez com que o vidro se depedaçasse em mil pequenos pedaços.
- Não deixe-me! –exclamou Felipe com os olhos arregalados puxando-na para perto dele.- Não vá.
O caminhão pendia e o carro deslizava pelo desfiladeiro em meio a tempestade. Viviane tentava soltar o cinto de Felipe, mas este estava preso. Ele segurava-a com força e em desespero:
- Não me deixe.-  grunhia.
O caminhão arremessou o carro no desfiladeiro no instante em que Viviane desesperada desistiu de salvar o marido e arrastou-se pela janela estraçalhada para fora do carro lentamente. Parada sobre grama e relva molhada a senhora viu o caminhão arrastar o carro pelo desfiladeiro tombando-se ambos em meio as pedras e caindo violentamente rodopiando pela encosta enquanto estraçalhavam-se e amassavam-se horrendamente destruindo-se, explodindo-se e incendiando-se e contra as rochas pontiagudas.
E então Viviane soube haver salvado- se da morte certa.
(Continua... )
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